Dia 16 de maio. Não deixo de olhar para o majestoso, impávido, tran-quilo e solene porte da Escola Normal. Não me canso de fitá-la, ainda tão jo-vem em seus 100 anos! A qualquer hora em que passo a sua frente, vultos se projetam em meus pensamentos. Vultos que perambulam pelos corredores, atendendo a chama-dos, atendendo a alunos, olhando os minutos, na pressa de cumprir o início das aulas. Surgem-me alunos e alunas!
As moças de saia azul, blusa branca, com o “E.N” nos suspensórios. Os moços, de uniforme cáqui, camisa branca e borzeguim. Na manga do paletó, as estrelas indicadoras da série frequentada. Surgem-me os professores, elegantemente trajados, a rigor, terno e gra-vata. Bem perto de mim, o Professor Fornos, professor de francês que exigia a memorização de longas poesias. Lembro-me: -“Je connais depuis l’automn, un bébè des plus charmant!...”. A seu lado, o Professor Cintra, nas aulas de Latim, ordenando-nos:
- “Papel e lápis!”.
Eram as sabatinas de “surpresa”. “Surpresa” que nos gelava!
Bem perto, também, o exigente Professor Mattos, desfiando-nos o dó, ré, mi, fá.
O Professor Mattos, não sei o motivo, mas ele se implicava com o cole-ga Benedito Melo Dias, para nós o “Dito Careta” e fazia-lhe previsões funes-tas:
- “O seu fim será no km 111”, referência ao manicômio “Juqueri”.
Esse professor tinha dois pequenos cachorros: o Caçu e o Çucá, nomes derivados, talvez, de “açúcar”.
Na rua, o professor usava um apito, audível somente ao Caçu e ao Çu-cá.
Não devo esquecer-me do Professor Franco, titular da cadeira de Português, muito competente.
O Professor Queirós, lecionava qualquer matéria: desde o português, la-tim, francês, até geografia e história. Imaginem se ele poderia estar apto para tanto! Certa vez, o Antônio Salomão, da “Casa Central”, perguntou durante a aula de francês:
- “Professor, qual a tradução de “circunscrire”?
O Professor Queirós, fazendo uma circunferência com o dedo indica-dor, no ar, sentenciou:
- “Circunscrire, circunscrire, é cincunferência!”.
Sorrateiramente, demos risadas abafadas, “verbo circunferência?...”.
Daí surgiram outros motejos:
Contávamos que ele traduzira: “l’enfant est très jolis”, como “o elefante e o tijolinho”.
As aulas de Inglês eram ministradas pela Professora Sílvia Galvão, excelente!
Dos colegas, lembro-me de poucos. Quero citar aqui o “Maranhão”, família de cor negra, merecedora de to-do respeito. Nunca, nunca fizemos a ele qualquer menção à cor. Era um colega como outro qualquer! Não havia preconceito racial, pre-conceito que o ex-recém presidente do Brasil, fez nascer. Ele soprou as cinzas, sob as cinzas reapareceu o carvão, o carvão transformou-se em brasas e as brasas em labaredas, já existentes em diversas universidades, com as cotas que favorecem os negros e seus descendentes.
Nos corredores, do lado masculino, o Severiano, o Pascuim, o seu Al-varenga e o seu Alfredinho eram os “serventes”, que cuidavam da disciplina. O Severiano descendia de negros, mas nunca foi ofendido pela cor. Era fiel cumpridor de horário. Ao aluno que não obedecia ao sinal de fim do recreio, ele imprimia um beliscão com os dedos indicadores, opostos, debaixo da manga do paletó. O seu Pascuim era solitário, egocêntrico, pouco exigia de nós. O seu Alvarenga tinha um modo peculiar de atemorizar os alunos e re-petia, a todo instante:
- “Comigo é no pau da goiaba!”.
Era muito caçoado por esse refrão.
O seu Alfredinho marcava sua presença, exigindo-nos silêncio nas en-tradas das classes. Era exímio tocador de “repique”.
No “Curso Normal” tivemos a sorte de ter os professores: Aécio de Souza Salvador, Antônio de Moura Barbosa, Jair Conti, José Pedretti Neto e Sebastião de Almeida Pinto. A Dona Jair contava-nos que ao ser instalado o curso de Sociologia da USP, vieram professores da França, para o início das aulas. O Dr. Sebastião tinha um modo muito especial de chamar nossa aten-ção, nas aulas de biologia. O Professor Barbosa participava de nossas memo-ráveis reuniões. Certa vez, após um churrasco, depois de várias rodadas de “batida”, precisamos trazer o Professor Barbosa para a Misericórdia! No dia seguinte, para manter sua autoridade em classe, censurava severamente alunos que tentavam conversar.
Enfim, a Escola Normal gerou uma constelação de “bandeirantes da luz e saber”. Cito apenas dois casos de ex-alunos que se projetaram fora de nossas fronteiras, literariamente: Dr. Francisco Marins e Dr. Hernani Donato, colegas desde o quarto ano primário, amizade que permanece até hoje.
* * *
De repente, os anos passaram, céleres!
E vejo meus filhos, com muita emoção, com aqueles rostinhos inocentes, com mochilas, com cadernos, com lanchinhos, a iniciarem o curso pré-escolar, iniciando a caminhada de responsabilidade, de dever cumprido, de esperança em um futuro promissor que, gota a gota, começaram a derramar-se da “meiga escola, da grande Via-Láctea”.
“Salve, salve, ó templo sagrado, foco imenso de vida e razão!”.
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