segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Demóstenes (384 - 322 a.C)

Durante a reunião,
os estudantes citaram Demóstenes,
o grande orador ateniense.
Relembraram que seu nome vem de
“dêmos”, povo e “sthénos”, força,
“força do povo”.
Afirmaram que fez jus à etimologia
de seu nome, porque
empregou toda “força”
de sua eloqüência,
contra Filipe,
rei da Macedônia, que pretendia
reduzir a Grécia à servidão.
Comentaram que ele
pronunciou várias orações
conhecidas como “Filípicas”,
mas o seu grande mérito
foi  “reanimar o espírito público;
restaurar o vigor político;
restabelecer a hegemonia de Atenas
e fazer, com suas palavras,
que Atenas tivesse uma vida
mais nobre”.

               II

Esse grande orador
precisou superar a gaguez,
que, no princípio motivava
as vaias do auditório.
Era necessário vencer
esse defeito!

Começou a empregar
muita “força” de vontade
para vencer sua falha.
Declamava longos discursos
com a boca cheia de “seixos”.
Discursava à beira da praia,
esforçando-se para dominar
o fragor das ondas,
com a intenção de vencer,
mais tarde, os clamores da multidão.
Costumava também encostar
o peito à ponta de uma espada,
para corrigir certos movimentos
desordenados de seu corpo.
Fechava-se em sua casa
meses inteiros estudando
e trabalhando.

                    III

Pairou entre os estudantes
uma pergunta:
-“Que mensagem nos deixou ele?”
Deixou-nos a mensagem
de luta,
de força de vontade,
de perseverança,
de superação.
Deixou-nos um exemplo
de crença em um ideal.

 “Demos” e “sthénos”,
“força do povo”.
“Demóstenes”...

Cogito ergo dum

“Penso, logo existo”.
Faz muitos anos
que Descartes formulou
essa frase.
“Propunha-se a criar
um método novo, 
oposto à filosofia 
da Idade Média”.
Estudou, afastou-se 
de ideias já imaginadas, 
duvidou das revelações humanas com referência ao mundo
e duvidou da existência 
da criação do 
próprio mundo.
Diante de todas as dúvidas, 
percebeu que
“duvidar significa pensar”.

E, desse raciocínio, 
nasceu a célebre frase:
“Penso, logo existo”.

Também, o teólogo, 
em suas andanças
por vários países, 
estudou diversas religiões, 
repensou a filosofia dos povos, 
também duvidou de tudo 
o que leu e releu.
Procurou, sem cessar, 
o significado de sua vida, 
mas sem resposta
propôs-se  a frase:
- “Penso, logo é impossível
contestar o mistério 
da existência humana”.

Iceberg

- Essa escada, Sila, 
tem vários lances, 
são muitos andares.
Como vencê-la?

- Não há dificuldade.
Degrau por degrau
iremos até ao último andar.

- Há tempos, Sila, 
assisti a uma curta metragem
sobre uma expedição
ao polo norte.
Quantas surpresas!
Acamparam perto 
de geleiras.
De repente, 
com um fragor,
deslocou-se um bloco, 
um iceberg 
que começou a navegar 
pelo mar.

- Deve ter sido gigantesco 
esse deslizamento!
- Sim, foi gigantesco.
Bem, chegamos ao alto.
Vencemos as escadas!
Daqui de cima, 
você ouve o canto das aves, 
vê a serra
que se azula, ao longe.

- Deus é majestoso!

- Imagine o bloco de gelo,
que se deslocou! 
Mais extenso do que
um navio, a flutuar,
azul, branco, 
sob os reflexos
da aurora boreal.
Sila, uma sugestão!
Vamos andar, sobre ele!

Amo você, muito, muito!

“A vida é bela!”
Vamos dançar uma valsa,
uma valsa vienense, sobre esse 
ICEBERG!

Vento Norte

- Não! Ele me embala,
me faz voltar ao passado!
Essa música...essa mesma música,
leva-me  para longe,
para o meu pomar,
para o meu pé de amora.

Você sabe 
de onde vem 
a palavra “amora”?
- !!!...
- Vem de môron, do grego,
e moru do latim.
Camões deu-lhe a
etimologia poética de “amor”.
Veja, separo a palavra
“amora”, e encontro
“amor-a” (alguém!).

Continue com o seu murmúrio,
esse murmúrio me embala, 
esse murmúrio me faz
voltar para longe,
para a casa grande,
para o meu pomar,
para o meu pé de amora
(com sua etimologia),
para o meu jardim.
Deixe o vento norte
trazê-los para mim!...

Uma estória

Bem defronte
da Escola Normal,
o jovem casal
deliciava-se com picolés
de uva, morango e de abacaxi.
Ela, sorridente,
morena, cabelos pretos,
dançando pelas espáduas!

Um protótipo de beleza!
Dezessete anos!
Flor de maracujá,
borboleta,
libélula,
pedra preciosa!

Ele, dezesseis anos,
penugem de barba
pelo rosto,
cabelos claros
olhos azuis.

-“Vamos ao jardim
da Catedral?”
O namorado concordou.

Nos cabelos da namorada
ele colocou
uma flor de primavera.

Sentaram-se num banco
de granito.

Na hora,
perpassou sobre eles
um encandecimento
de paixão.
Pelo ar, vibrou
um prelúdio nupcial,

transformando o jardim
em Jardim do Paraíso.

Os sinos da Catedral
repicavam!
Os sabiás alternavam
as notas musicais;
os sanhaços assanhavam-se
em idílio;
os beija-flores,
nos ipês amarelos,
lá de cima, espiavam
os namorados.

As abelhas aprimoravam
seus zumbidos de vento!
Esvoaçavam sobre os namorados,
arrebatadas por desejos
de “polinizarem”
de “fecundarem”
as flores do flamboyant,
das primaveras,
dos ipês.

Os namorados continuavam
a trocar,
minutos somados a minutos,
centenas e centenas
de beijos!
Beijos rápidos,
beijos demorados!
Todos com sabor de
uva, 
morango 
e abacaxi!...

Esqueça

- Elise, são nove horas!
Por que você não me chamou mais cedo?
- Não é tarde! O sol despontou há pouco.
- Sim, mas as últimas notícias?As prisões, quantas pessoas conseguiram libertar-se das correntes? Quantas conseguiram ir além dos muros?
- Poucas, bem poucas!Não se martirize!
-Elise, preciso perguntar: aqui, de onde estou,não entrevejo a simetria de meus canteiros traçados pelas mãos do paisagista.
- Os canteiros...a erosão...
- Mas as três palmeiras imperiais, plantadas em triângulo, simbolizando os princípios da Liberdade, Igualdade 
e Fraternidade?
- Não posso falsear: elas secaram! Os homens inventaram a Liberdade e amordaçaram as próprias bocas!
Imaginaram a Igualdade e se uniram à lutas. Idealizaram a Fraternidade, mas abraçaram a desarmonia.
- Elise, e os grilhões, os grilhões que também se prenderam aos meus tornozelos e me impedem de seguir outros caminhos?
- Não pense em mais nada!
- Por quê?
- !!!...
- Elise, e as estátuas de Minerva e de Cupido, colocadas nos canteiros, onde estão?
- Foram roubadas! Esqueça, esqueça!Nada, absolutamente nada, poderá ser recomposto!

Labirinto

Às três horas da manhã
ele entreabriu a veneziana 
de seu quarto,
e, extasiado com o firmamento,
pensou:
- “Em minha vida,
nunca houve
uma estrela sequer”.

Lembrou-se do hospital,
das noites sem respirar, 
dos revezes, 
das derrotas 
quando esperava vencer;

Lembrou-se da canoa
levada pela correnteza
e ele, sem remo, perto da cascata;

Lembrou-se de que pediu
devotamente uma graça
diante do altar;

Pediu que o Senhor
lhe mandasse
um fio, como o de Ariadne
a Teseu,
para que pudesse encontrar
uma porta de saída
do labirinto
que o aprisionava
mais e mais.

Depois de muito tempo, 
houve certa manhã
em que ele voltou
a ajoelhar-se diante do altar.

Subitamente, percebeu uma luz
projetar-se em sua direção,
Luz que o iluminou,
Luz que desfez suas desesperanças,
Luz que o fez compreender
que o labirinto que o encarcerava
se abrira,
para que ele pudesse livrar-se,
definitivamente.